Sunday, October 12, 2008
Textos sobre organização e ativismo:
www.nodo50.org/insurgentes/textos/autonomia/21tirania.htm
Abandone o ativismo - Andrew X
www.arteeanarquia.xpg.com.br/abandone_ativismo.htm
Sobre conflito e consenso Para construir uma base de trabalho em grupo. Sobre conflito e consenso Para construir uma base de trabalho em grupo.
Tradução: Adriana Veloso
Parte 1
Apresenta-se aqui um modelo particular para a tomada de decisão chamado Consenso Formal. O consenso formal tem uma estrutura claramente definida. Requer um compromisso à cooperação ativa, ao discurso disciplinado, a escutar, e respeitar as contribuições de cada membro. Do mesmo modo, cada pessoa tem a responsabilidade participar ativamente como um indivíduo criativo dentro da estrutura. A vacância, a negação, e a repressão do conflito são comuns durante reuniões.
Conseqüentemente, usar o consenso formal pode não ser fácil no início. O conflito não resolvido das experiências precedentes pode vir expressando-se adiante e tornando difícil o processo, quem sabe até impossível. A prática e a disciplina ajudam. O benefício de todos na participação e cooperação vale o esforço que se pode inicialmente ter.
Muitos métodos diferentes podem ser eficientes, se cada participante compartilhar de uma compreensão comum das regras do jogo. A dinâmica do grupo criada pelo processo do consenso é baseada em valores diferentes e utiliza uma língua diferente, uma estrutura diferente, e muitas técnicas diferentes, embora algumas técnicas sejam similares ao processo amplamente conhecidos.
* A estrutura do consenso formal:
Muitos grupos usam regularmente técnicas diversas de discussão aprendidas durante a prática da solução de conflitos e a tomada de decisões. O consenso formal cria uma separação entre a identificação e a definição dos interesses/preocupações.
Talvez, se todos no grupo não tiverem nenhum problema em dizerem o que pensam, não necessitarão esta estrutura. Esta estrutura fornece oportunidades àqueles que não estão participando.
Um grupo por definição é um número de pessoas que têm algo em comum que os faz relacionar entre si. Qualquer grupo que quiser adotar o consenso formal precisa depositar considerável atenção aos princípios do processo em que se opera.
* Sobre o processo de decisão
O processo de decisão é muito mais sobre o conflito do que sobre o acordo, trabalha-se melhor com o consenso em uma atmosfera em que o conflito é incentivado, suportado, e resolvido cooperativamente, com respeito, a não violência, e com a criatividade. O conflito é desejável. Não é algo a ser evitado, demitido, diminuído, ou negado. O processo do consenso é baseado na cooperação dinâmica. Todos trabalham juntos para fazer tomar a melhor decisão possível para o grupo, todos os interesses são levantados e resolvidos, às vezes um por um, até que todas as vozes estejam ouvidas.
Desde que uma proposta é colocada em pauta, ela não é mais a propriedade de quem a apresentou, mas é discutida e trabalhada por tod@s para melhorar a proposta para fazer-lhe a melhor decisão para o grupo.
A teoria tradicional da não violência se baseia no fato de que o uso do poder para a dominação é indesejável. A não violência espera que as pessoas utilizem seu poder de persuasão sem enganação, coerção, ou malícia, usando a verdade, a criatividade, a lógica, o respeito e o amor.
O consenso leva em conta as preocupações de todos e visa a resolvê-los/aclarar-los antes que a decisão seja tomada. O mais importante, neste processo é incentivar um ambiente em que todos são respeitados e todas as contribuições são avaliadas. O consenso formal é um processo de decisão mais democrático. Grupos que desejam envolver sempre mais voluntários na participação têm a necessidade de utilizar um processo inclusivo. Para atrair e envolver cada vez mais pessoas é importante que o processo incentive a participação, permita o acesso igual ao poder, desenvolva a cooperação e crie um sentido da responsabilidade individual para as ações do grupo.
O objetivo do consenso não é a seleção de diversas opções, mas o desenvolvimento de uma decisão que seja a melhor para o grupo como um todo. É em síntese evolução, não competição nem atrito.
Parte 2
O fluxo livre das idéias, mesmo entre amigos, conduz inevitavelmente ao conflito. Neste contexto, o conflito é simplesmente a expressão de opiniões diferentes. O desacordo em si não é nem bom, nem mau. Os diversos pontos de vista trazem ao foco e exploram as forças e as fraquezas das atitudes, das suposições, e dos planos. Sem o conflito, é menos provável que alguém pense a respeito e avalie um ponto de vista e seus próprios preconceitos. Não há nenhuma decisão correta, somente o melhor para o grupo inteiro. A tarefa é trabalhar junto para descobrir que escolha é a mais aceitável para todos os membros.
Evite responsabilizar qualquer um pelo conflito. A culpa é inerentemente violenta. É um gesto de ataque. Incentiva para que as pessoas se sintam culpadas, defensivas, e excluídas. O grupo perderá sua habilidade de resolver o conflito. As pessoas esconderão seus verdadeiros sentimentos para evitar serem responsabilizadas pelo conflito.
O conflito é visto geralmente como um impedimento a acordos, a alcance de entendimentos e com fator de corrupção de relacionamentos calmos. Entretanto, a tese do consenso formal é que o conflito sem violência é necessário e desejável. Fornece as motivações para a melhoria. O desafio é criar uma compreensão em todos que participam que esse conflito, ou opiniões diferentes sobre propostas, é para ser esperado e aceito. Não evite ou reprima o conflito. Crie um ambiente em que o desentendimento possa ser expressado sem medo. As objeções e as criticas podem ser ouvidas, não como ataques, não como tentativas para "derrotar" uma proposta, mas como um interesse que, quando resolvido, torna a proposta mais forte.
Esta compreensão do conflito pode não ser facilmente aceita pelos membros de um grupo. Nossa sociedade nos treinou para determinar este conceito. Conseqüentemente, não será fácil criar o tipo de ambiente onde as diferenças podem ser expressas sem medo ou ressentimento. Mas isso pode ser feito. Requerer tolerância e vontade de experimentar. Portanto, os princípios e valores que dão forma à base do compromisso para se trabalhar junto e resolver os conflitos necessitam ser claramente definidos e aceitos por tod@s envolvid@s.
Se um grupo deseja adotar o consenso formal como seu processo de decisão, um documento que descreva não somente os objetivos, mas inclua também a definição dos princípios e de valores do grupo deve ser trabalhado em conjunto. O processo deve ser conduzido em um ambiente em que se promova confiança, respeito, e se compartilhe as habilidades.
Os seguintes são os princípios que, quando avaliados e respeitados, incentivam e constroem o consenso.
*Confiança - sem duvida é o mais necessário. Sem certa quantidade de confiança, não haverá cooperação ou solução de conflitos de forma não violenta. Para que a confiança floresça, é preciso que as pessoas estejam dispostas a examinar suas atitudes e a estar abert@s a idéias novas. O reconhecimento e a apreciação das diferenças pessoais e culturais promovem a confiança. Nem a aprovação, nem amizade são necessárias para que o relacionamento do grupo funcione bem. Desenvolvendo a confiança, o processo do consenso incentiva o desenvolvimento intelectual e emocional dos pessoas dentro de um grupo.
*Respeito - é todos responsabilidade mostrar o respeito a um outro. As pessoas têm a sensação de estarem sendo respeitadas quando todos as escutam, quando não são interrompidas, quando suas idéias são levadas a sério. O respeito emocional, assim como o respeito dos interesses diversos, promove o tipo de ambiente necessário para que o consenso se desenvolva. Para promover o respeito, é importante distinguir entre uma ação que cause um problema e a pessoa que fez a ação. Nós devemos criticar o ato, não pessoa. Mesmo se você acha que a pessoa é o problema, agir dessa maneira nunca resolve qualquer coisa.
*Da unidade e da finalidade sobre os objetivos - Naturalmente, haverá opiniões diferentes sobre como conquistar os objetivos em comum. Entretanto, deve haver uma base unificadora, um ponto em comum, que seja reconhecido e aceito por todos.
*Não violência - as pessoas que optam por decisões não violentas usam seu poder para alcançar objetivos respeitando as diferenças e cooperando com os outros. Neste ambiente, considera-se violento usar o poder para dominar ou controlar o processo do grupo. Entende-se que o poder de revelar sua verdade é a força máxima permitida para tentar convencer o outro do seu ponto da vista.
*Cooperação - infelizmente, a sociedade ocidental está saturada na competição. Quando ganhar a argumentação torna-se mais importante do que atingir os objetivos do grupo, a cooperação torna-se difícil, se não impossível. As atitudes adversas para com propostas ou pessoas focalizam a atenção mais na fraqueza do que na força. Uma atitude de ajuda mútua e de sustentação constrói a cooperação.
Não admitir o fato de que há oposição de idéias impede a solução e aponta para uma falha, a partir do momento que explora e desenvolve os sentimentos que fizeram com que o conflito surgisse. A presença do conflito pode criar uma ocasião para o crescimento. Aprenda usá-la como um catalisador, que coloca ‘a luz soluções criativas e desenvolve uma compreensão melhor de si próprio e dos outros.
Com paciência, qualquer um pode aprender resolver criativamente o conflito, sem defesas ou culpa. Os grupos podem aprender a nutrir e apoiar seus colegas neste esforço por permitir a criatividade e a experimentação. Este processo necessita que o grupo se auto avalie continuamente e melhore estas habilidades acima sugeridas.
O compromisso para com o grupo - Ao grupo juntar-se a um grupo, um aceita uma responsabilidade pessoal de comportar-se com respeito, boa vontade, e honestidade. Espera-se De cada um o reconhecimento de que as necessidades do grupo têm uma determinada prioridade sobre os desejos do indivíduo.
Muitas pessoas participam no trabalho de grupo em uma maneira muito egocêntrica. É importante aceitar a responsabilidade compartilhada de ajudar a encontrar soluções para as preocupações dos outros.
*Participação ativa:
Todos temos o direito de expressar nossos próprios pensamentos. Decidimos para nós mesmos o que é certo e errado. A partir do momento em que o consenso é um processo de síntese, não de competição, todos os comentários sinceros são importantes e valiosos. Se as idéias forem postas enquanto propriedade dos pessoas e as pessoas estiverem sustentando fortemente suas opiniões pessoais, o consenso será extremamente difícil. A teimosia, a cabeça fechada, e a possessão conduzem ao comportamento defensivo e um comportamento argumentativo que corrompe o processo. Para que ocorra a participação ativa, é necessário promover a confiança criando uma atmosfera em que cada contribuição é considerada valiosa. Com incentivo, cada pessoa pode desenvolver o conhecimento e a experiência, um senso de responsabilidade e de competência, e a habilidade de participar.
* igual Acesso ao poder: Por causa das diferenças pessoais (experiência, eloqüência, educação, acesso à informação, etc...) ou pelas disparidades políticas, algumas pessoas têm inevitavelmente um poder mais eficaz do que outros. Para contrabalançear isso, é necessário que todos tentem compartilhar criativamente e conscientemente o poder, as habilidades, e a informação.
* Impedimentos à falta do consenso: É necessário treinar as pessoas na teoria e na prática do consenso. Até que o consenso seja uma forma comum de decisão em nossa sociedade, os membros novos necessitarão de alguma maneira a aprendizagem sobre o processo.
* Estruturas hierárquicas externas: Pode ser difícil para um grupo alcançar internamente o consenso quando ele é parte de um grupo maior que não reconhece nem participa em um processo de consenso. Pode ser extremamente frustrante que aqueles fatores externos ao grupo possam corromper o processo de decisão, interferindo no o processo. Conseqüentemente, é aconselhável que pessoas e grupos reconheçam que podem ser autônomos com relação ao poder externo se forem responsáveis por suas ações.
* Preconceito social: Tod@s fomos expostos às polarizações, às suposições, e aos preconceitos que interferem no espírito da cooperação e da participação igualitária. Todas as pessoas são influenciadas por estas atitudes, mesmo que possam deplorá-las. As pessoas normalmente não são incentivadas a confrontar estes preconceitos nelas próprias e no outros. Se o grupo achar que uma atitude prejudicial é apenas um problema pessoal, então o grupo não percebe as atitudes sociais que criaram tais problemas. É apropriado expor, confrontar, aceitar e tentar resolver atitudes sociais prejudiciais, mas somente no com respeito mutuo e confiança. As pessoas que participam do grupo são responsáveis por reconhecer quando suas atitudes são influenciadas pelo treinamento social destrutivo e por mudá-las. Quando há uma atmosfera de suporte para reconhecer e mudar atitudes indesejáveis, então o grupo todo se beneficia.
*Sobre os graus de conflito: O consenso é um processo de solução não violenta do conflito. A livre expressão das idéias e preocupações é algo considerado desejável e importante. Quando um grupo cria uma atmosfera que nutre e apóia o desacordo sem hostilidade e medo, está construindo uma base mais sólida e mais criativa para as decisões.
Cada pessoa é responsável por expressar suas próprias preocupações. É incentivado que para cada preocupação expressa haja também interesse por sua resolução. O grupo então responde tentando resolver tal questão através de discussões. Se a preocupação permanece não resolvida após uma ampla discussão aberta, o facilitador então pergunta de que forma tal preocupação interfere nos princípios do grupo. Se for o caso, então o grupo aceita que a proposta está obstruída.
Desta perspectiva, não é decidido pelo indivíduo sozinho se um particular ponto está obstruindo o consenso; determina-se em cooperação com o grupo como um todo. O grupo determina a legitimidade de uma preocupação. A pessoa e o grupo estão concordando em discordar, conforme cada ponto de vista e o respeito mutuo.
Ocasionalmente, há uma preocupação que não tem solução; a pessoa não acha necessário bloquear uma proposta, mas quer expressar seu pensamento de que não apóia a proposta. O indivíduo é responsável por expressar preocupações; o grupo é responsável por resolve-los. O grupo decide se uma preocupação do indivíduo é legitima.
O consenso formal é apresentado em níveis ou ciclos. No primeiro nível, a idéia é permitir que todos expressem sua perspectiva, incluindo preocupações, mas o tempo do grupo não é gasto resolvendo problemas. No segundo nível, o grupo focaliza sua atenção em identificar as preocupações, ainda sem resolvê-las. Isto requer disciplina. Os comentários de reação, até mesmo os engraçados, e as definições, até mesmo as boas, podem inibir as idéias criativas dos outros. Não até que se chegue ao terceiro nível, onde a estrutura permite a exploração das resoluções.
As reuniões freqüentemente podem ser um local/tempo em que algumas pessoas experimentam sentimentos de confusão e frustração. Há sempre espaço para a melhoria no processo e/ou na dinâmica do grupo. Freqüentemente, não há nenhuma conversa especificamente sobre a interação do grupo durante uma reunião. Reserve um tempo ao final da reunião para permitir que alguns destes assuntos venham à tona e para que as pessoas possam expressar seus sentimentos. A avaliação é muito útil ao usar o consenso. Vale a pena o tempo gasto. As avaliações não necessariamente levam tanto tempo assim, de cinco a dez minutos costuma ser suficiente. Não é uma discussão, nem é hora de comentar sobre as afirmações de um ou de outro. Não reabra a discussão em um item da agenda. A avaliação é a hora especial para escutar os outros e aprender sobre eles. Pense a respeito de como o grupo interage e como melhorar o processo.
Esteja certo de incluir os comentários da avaliação nas notas da reunião. Isso é importante por duas razões. Durante um tempo, se os mesmos comentários da avaliação forem feitos repetidas vezes, isto é uma indicação a que o assunto que está por trás dos comentários necessita ser revisto. Isto pode ser realizado colocando o assunto na agenda da a reunião seguinte. Também, ao olhar as notas de reuniões passadas, os comentários da avaliação podem freqüentemente revelar como o grupo lidou com o que realmente aconteceu, além das decisões que foram tomadas e os sumários dados. Eles adicionam um algo a mais na complexidade da dinâmica interpessoal.
*A finalidade da avaliação: A avaliação possibilita um fórum para identificar falhas processuais, comportamentos inapropriados, problemas de facilitação, dificuldades logísticas, tom excedente, etc... A avaliação não é um momento de reabrir a discussão, para fazer decisões ou tentar resolver problemas, mas sim, para fazer indicações, expressar sentimentos, destacar problemas, e sugerir soluções em um espírito de cooperação e confiança. Para ajudar a comunicação a fluir, é melhor que cada critica venha acompanhada de uma sugestão específica para a melhoria. Também, sempre cada um fala por si próprio. Não tente representar qualquer um. Incentive todos que participaram na reunião para fazer parte da avaliação. Faça comentários sobre o que funcionou e sobre o que deu errado. Espere opiniões diferentes. Não é geralmente útil repetir comentários. A avaliação prepara o grupo para melhores reuniões futuras. Quando o processo vai bem, o grupo responde com apoio em uma situação difícil, ou os facilitadores fazem trabalhos especialmente bons, note isso e aprecie o trabalho bem feito.
Não tente forçar a avaliação. Isto causará comentários superficiais ou irrelevantes. Por outro lado, não permita que as avaliações continuem indeterminadamente. Esteja certo de que cada comentário foi levado a sério e faça uma tentativa, logo depois, para resolve-lo ou executá-lo. As pessoas que sentem que suas sugestões são ignoradas ou são desrespeitadas perderão a confiança e o interesse no grupo.
Para encontros, conferências, convenções ou reuniões grandes, o grupo deve considerar avaliações curtas após cada seção, em adição àquela ao fim do evento. Aspectos distintos em que o grupo deve focar: o processo em si próprio, um papel específico, uma técnica particular, medos e sentimentos, dinâmica do grupo, etc... Em reuniões grandes, avaliações escritas fornecem meios para que todos respondam e considerem comentários e sugestões, que de outra maneira poderiam ser perdidos. Algumas pessoas se sentem mais confortáveis escrevendo suas avaliações do que as falando. Planeje as perguntas bem, praticando o que foi aprendido, o que é valido, e o que poderia ter sido melhor e como. Um comitê de avaliação permite uma oportunidade para os presentes, facilitadores e coordenadores de se reunirem depois da reunião para reverem os comentários da avaliação, considerarem as sugestões de melhoria, e possivelmente prepararem um sumário da avaliação.
* As funções da avaliação:
Há pelo menos dez maneiras em que as avaliações ajudam na melhoria das reuniões; Melhorar o processo por meio da análise do que acontece, porque acontece, e como pode melhorar.
Examinar como algumas atitudes e afirmações podem ter causado vários problemas e encorajar cuidado especial pra prevenir que ocorram novamente.
Melhorar a compreensão das dinâmicas do grupo e encorajar aos membros do grupo a aprenderem uns com os outros.
Permitir a livre expressão.
Expor os comportamentos inconscientes ou atitude que interferem no processo.
Incentivar o compartilhamento das observações.
Verificar a utilidade e eficácia da técnica e do procedimento utilizado.
Reconhecer o bom trabalho e fazer elogios uns aos outros.
Refletir sobre os objetivos da reunião e se eles foram alcançados.
Examinar os vários papéis, sugerir maneiras para melhorá-los, e criar novos, se necessário.
Fornecer um sentido total de conclusão e do fechamento da reunião.
* Parte final
Alguns tipos de perguntas da avaliação: É necessário estar ciente da maneira que as perguntas são feitas durante a avaliação. A forma com que são colocadas as palavras pode controlar a consideração da proposta e do foco a ser dado, afetando o nível da participação. Pode causar respostas que focam no que foi bom ou ruim, ou certo ou errado, melhor ou pior, ao invés do que funcionou e no que deve ser ainda trabalhado. Foque na aprendizagem e na evolução. Evite responsabilizar pessoas. Incentive opiniões diversas.
Algumas simples perguntas para uma avaliação:
Estavam os membros desinteressados com a agenda, os relatórios, ou a discussão?
Os membros retiraram-se ou sentiram isolados?
O comparecimento é baixo? Se assim, por que?
As pessoas estão chegando tarde ou estão saindo cedo? Se é assim, por que?
Como era o tom ou a atmosfera geral?
Houve um uso apropriado dos recursos?
Eram as logísticas (tais como a data, o tempo, ou a posição) aceitáveis?
Qual foi a experiência mais importante da reunião?
Qual foi a experiência menos importante da reunião?
Qual foi o ponto mais alto? Qual foi o ponto mais baixo?
O que você aprendeu?
Que expectativas você tinha no começo e a que grau elas foram correspondidas?
Como mudaram?
Quais objetivos você tinha e em que grau eles foram realizados?
O que funcionou bem? Por que?
O que não funcionou tão bem assim? Como poderia ter sido melhorado?
Que outro você sugeriria para ser mudado ou melhorado, e como?
Fonte: Rede Indymedia.
http://docs.indymedia.org/view/Local/CmiBrasilConflitoConsenso
MOVIMENTO FICTÍCIO E MOVIMENTO REAL
Minha intensão com a publicação desse texto é estimular o questionamento sobre o ativismo e as possibilidades que dispomos para construção de uma sociedade livre e igualitária.
Nota dos Tradutores:
O texto abaixo, escrito por Alfredo Bonanno e traduzido para o espanhol por Pablo Serrano, foi extraído do n° 16 de Ekintza Zuzena (Ação Direta). Claro e didático, no melhor sentido do termo, embora pareça óbvio para certos especialistas e catedráticos do "movimento anarkista", é obra de quem sabe o que está dizendo - quando menos, porque se trata de observador-participante dos fatos que relata.
Ironizando a megalomania dos anarcoburocratas, a presunção analfabeta dos mandarins libertários e outros cacoetes dos onipresentes mascates da liberdade, o autor nos faz lembrar de farsescas personagens (durrutis fujões, proudhons avarentos, floras tristans promíscuas etc., além dos inumeráveis tipos ou poses: o guerrilheiro heróico, a poetisa feminista, o(a) punk de butique, o troglodita anarcristão, o sindicalista combativo, ...), que compõem uma ruidosa malta, duplamente notória pelo oportunismo que lhe sobra e pela vergonha que lhe falta.
Alfredo e Pablo são dois anarquistas revolucionários que intermitentemente têm sido forçados a aceitar a nefasta hospitalidade carcerária dos estados democráticos sob os quais vivem.
O MOVIMENTO ANARKISTA
O movimento anarkista, em sua estrutura, está composto por pequenos centros de poder que se desenvolvem, atuam, julgam, condenam, absolvem, decidem e se equivocam como todos os centros de poder. A função que desenvolvem é semelhante a de sindicatos e partidos, ao servir de enlace entre as exigências do capital e as pressões da luta de classes. Sua ótica é reunir o maior número possível de pessoas sob uma sigla ou bandeira. Neste caso, o poder se mede pelo número de militantes, ou melhor, pelo número de grupos federados (o mais impressionante é que não se sabe se um grupo está constituído por 2 ou 200 militantes).
Muitos companheiros estão mais preocupados com os congressos e reuniões do que com as próprias lutas; estão mais dispostos a redigir artigos filosóficos para as revistas que insistem em publicá-los do que ao compromisso pessoal; não estão preocupados em atacar o poder e sim em molestá-lo o mínimo possível, para continuar dispondo de pequeníssimos espaços onde lutam ou fingem lutar.
A verdade é que, na Itália, o movimento é, em sua maior parte, um movimento fictício. Excetuando raros casos, está fora das lutas. Lutas que não poucos grupos e federações se atribuem. Algum grupo vai mais além e se satisfaz fazendo-nos conhecer suas experiências dentro de algum conselho de fábrica ou comitê de bairro. O que queremos destacar é que, freqüentemente, por trás de toda essa tendência ou coletivo podem se encontrar algumas personalidades mais fortes que outras, que acabam por construir um verdadeiro e próprio centro de poder, administrando-o em perfeita harmonia com as regras universais do poder.
Não falta - e isso é evidente de modo particular no movimento anarkista italiano - a tendência a supervalorizar a importância do movimento no sentido específico, como elemento dinamizador da revolução libertaria. É novamente a mania do crescimento quantitativo, da força numérica, tanto mais forte e desconcertante quanto menos se é, e quanto mais longe se está das condições que fazem possível o próprio crescimento.
Resumindo, temos um movimento que se coloca como depositário de um patrimônio de idéias, análises e experiências bem precisas, mas que não tem uma relação direta com as lutas. Falta sua presença nas massas, que se considera como condição "única" de se autodenominar movimento anarkista. Mas nem todos os companheiros que se situam dentro desse movimento compartilham essas idéias, nem todos se acomodam à espera de um crescimento quantitativo que deva ocorrer dentro do movimento, crescimento determinante para qualquer ação a desenvolver "nas" massas. Alguns vêem o problema no sentido inverso. Em geral, essa análise distinta é realizada pelos denominados grupos autônomos, ainda que não seja nada homogênea ou universalmente aceita.
MOVIMENTO FICTÍCIO E MOVIMENTO REAL
Consideramos como movimento anarkista fictício o conjunto de companheiros que administram uma posição de poder dentro do movimento, que não realizam uma atividade anarkista que contribua para o crescimento da consciência revolucionária nas massas, mas se limitam a presidir reuniões e congressos, tratando de dirigir os companheiros mais jovens ou menos preparados para o que eles consideram os princípios indiscutíveis do anarquismo.
Sobram os outros companheiros que, por debilidade ou por aquiescência, acabam por se adequar às decisões, que são tomadas sempre pelas mesmas pessoas. Esses, ainda que comprometidos nas lutas concretas, deturpam o significado da necessidade de delegação, e não se ocupam em se contrapor de modo válido à "tirania" do companheiro mais competente ou de maior autoridade.
O resto do movimento compreende duas direções bem precisas: os que teorizam a necessidade da minoria específica, constituindo-se como vanguarda destinada a tutelar os sagrados princípios do anarquismo (o anarcoleninismo); e os autônomos, que se debatem entre o estímulo originário do crescimento e uma nova visão do movimento no sentido real. No caso em que esses últimos se considerem os possuidores da verdade e, como tais, destinados a recolher a herança das sagradas virtudes anarkistas do passado, seu destino está selado com antecipação. Muito em breve, eles também encontrarão seu líder (se já não o encontraram) e marcharão nas filas do movimento fictício; caso olhem para fora da organização, a realidade concreta das lutas, então talvez sejam os companheiros mais indicados para nos dar uma nova análise da essência e das possibilidades de um movimento anarkista real. Mas, em geral, o movimento anarkista não incomoda muito se lhe permitem dormir em paz. A ilusão democrática abre espaços de ação imaginária diante dos olhos de muitos companheiros e os induz ao erro.
O MOVIMENTO ANARKISTA REAL
A parte não desdenhável do movimento anarkista internacional que está constituída pelos grupos autônomos não tem um direito maior que qualquer outra, de declarar-se parte - ou constituinte - do movimento anarkista real. Aqui também se podem verificar fenômenos de concentração elitista, de gigantismo obtuso, de atraso nas análises e nas estratégias de luta.
Ao contrário, parece-nos que o lugar mais seguro para encontrar o movimento anarkista real está fora dos esquemas e das igrejas. Situa-se nas massas, que, concretamente, plasmam seus postulados na confusão e nas trocas de opinião, nos erros e nas vacilações, mas com um notável esforço de auto-organização da luta, empregando uma estratégia anarkista de aproximação da revolução social. Mas essa busca das massas não se pode fazer às cegas.
Nas massas exploradas, a organização dos ataques ao poder (patrões, sindicatos, partidos) é espontânea, emerge de modo imediato do processo de exploração. Nessas lutas, dá-se o mínimo de condições necessárias para o crescimento de um movimento real, que não é quantificável em termos de grupos ou federações, e que, indiretamente, torna-se reconhecível pela quantidade de ações de um certo tipo que se realizam com base na circulação de certas idéias, na resposta que essas idéias recebem em determinados ambientes de exploração.
Nessa perspectiva, as teses anarkistas do passado não podem ser aceitas como se fossem sagradas, mas devem ser lidas de forma atualizada, como modelos de ação e não como estereótipos mumificados. Somente deste modo se poderá ter um movimento anarkista real, que não se atrase frente aos estímulos teóricos procedentes das situações reais impostas pelo movimento real dos trabalhadores. Este, resistindo à eliminação física nas prisões e nos manicômios, recusando-se a jogar no território oferecido pelo poder, desenvolve uma organização autônoma que também pode chegar a formas bem precisas de articulação.
O movimento anarkista real não pode ser estranho a esta germinação organizativa espontânea: deve obrigatoriamente fazer parte dela, tratando de garantir a essência libertária que emerge do movimento de base: a luta contra todo tipo de poder. Mas esse movimento anarkista real não deve prevalecer sobre as organizações do movimento dos trabalhadores, e estas não podem ser administradas por especialistas iluminados, capazes de mantê-las atuantes nos momentos de cansaço. O ponto essencial, que não se deve esquecer, é que esses famosos momentos de refluxo são para o movimento fictício dos trabalhadores, não para o movimento real, submetido a todo instante a pressão incansável da exploração e do genocídio.
O MOVIMENTO FICTÍCIO E O DOMÍNIO DO APARENTE
Somos partidários da organização, mas a organização não pode ser um problema em si mesma, separada da luta, um obstáculo para a luta de classes. A organização que se desliga da realidade cai sob o domínio do aparente e se eleva à categoria de catedral no deserto. Em seu interior se produz todo tipo de disputas em torno de estratégias e táticas que nada têm a ver com a realidade; tudo acontece no mundo fictício.
O motivo dessa situação deveria ser procurado na existência de pequenos centros de poder, que atraem muitos companheiros a girar em torno deles, enquanto os poucos que administram esses centros, submetidos à dinâmica que rege qualquer organização de poder, não podem fazer outra coisa senão continuar a administrá-los. Parece-nos que esses companheiros, mesmo de boa fé, são os responsáveis diretos por essa situação, se continuam sem fazer nada a respeito. É verdadeiramente extraordinário o cuidado com que são embalsamadas certas múmias por quem deveria ser, por definição, contrário a todo tipo de conservadorismo. Essencialmente, é a ilusão produzida pela aparência o que impulsiona esses companheiros a se comprometerem com algo que não faz sentido se não é considerado um fim em si mesmo. Daí o enorme esforço para manter de pé organizações que apenas tendem a se perpetuar, esperando chegar o dia glorioso de passar à ação.
O projeto revolucionário anarkista parte do contexto específico da realidade das lutas. Não é um produto da minoria, não é elaborado por ela e exportado ao movimento dos trabalhadores, que o adquire no todo ou em parte. O projeto revolucionário não é nem mesmo uma realização acabada em todas suas partes. Os anarkistas não devem impor sua consciência de minoria revolucionária à classe trabalhadora. Atuar nesse sentido significa, involuntariamente, perpetuar a violência leninista.
Ao contrário, participando no processo de auto-organização da massa, atuando dentro, não como teóricos, políticos ou especialistas militares, mas como massa, pode-se evitar o obstáculo insuperável da minoria separada que tenta "viajar" até a totalidade da massa, mas não sabe decidir a metodologia a empregar. É necessário partir do nível real das lutas, do nível concreto e material do combate de classes, construindo pequenos organismos de base, autônomos, capazes de se situar no ponto de coincidência entre a visão total da liberação e a visão estratégica parcial que a colaboração revolucionária faz indispensável.
Não se trata pois de propaganda, de "fazer-se conhecer" pelas massas, de ter acesso aos grandes meios de comunicação, de falar na televisão para milhões de espectadores; trata-se de realizar em cada ato da luta de massas a consciência revolucionária da minoria, transformando em fato concreto a consciência que, em círculo minoritário, permanecia como simples abstração, fazendo com que a necessidade do comunismo, sentida pelas massas, se realize, pouco a pouco, em seu cotidiano, na organização material da vida.
QUE MOVIMENTO?
Definitivamente, o que devemos entender por movimento anarkista? Pensamos que deve ser entendido no sentido mais amplo do termo, como o conjunto de todas as forças que lutam pela realização de uma revolução social libertária. Mas pensamos também que a cristalização oficial de alguns componentes desse movimento, a posição cômoda sobre temas escolásticos, o encerramento em capelinhas que cospem sentenças de absolvição ou condenação acabou transformando a maior parte desse movimento num pesado traste ideológico. Contudo, além dessa estrutura que está matando tudo, existem companheiros, indivíduos que tentam lutar por seu ideal, que vêem com clareza como esse choque contínuo com a estrutura acaba por oprimir seu ideal, quando deveria exaltá-lo e fazê-lo realizável. Esses companheiros são os destinatários privilegiados do nosso discurso.
A ORGANIZAÇÃO
A organização específica das massas exploradas é sua auto-organização. Esta pode estender-se ao longo do combate e do desenvolvimento das contradições, mas sem perder seu fundamento espontâneo e auto-regulado. Isto garantirá a persistência de uma estrutura horizontal, única segurança para continuar a luta. O isolamento é a causa da derrota revolucionária, não somente no plano militar, mas também no plano político. Mas o isolamento pode ser evitado se a organização atuante não é produto de um dualismo (organismo de massas - organização específica), mas é criação da própria massa, que estende sua atividade e se organiza de modo autônomo.
Tudo ainda está por fazer nessa direção. A massa desenvolve e acrescenta diariamente sua necessidade de comunismo, elabora sua própria teoria, descobre seus inimigos. Não podemos continuar fechados em nossos grupos, meditando análises e propondo estratégias de ação como produtos de um organismo que se considera interlocutor privilegiado da massa. Devemos inverter o argumento, deixar de falar com nós mesmos e começar a falar com os explorados e oprimidos.
NOVAMENTE SOBRE O ERRO QUANTITATIVO DA MINORIA
A velha ideologia quantitativa pode se transferir, sob a forma de objetivação da própria minoria. O compromisso com a luta é limitado pela busca do crescimento do movimento específico da minoria. Não devemos nos basear nas próprias perspectivas e nos próprios interesses, utilizando as instâncias ocasionais do movimento dos trabalhadores como detonador do processo de desenvolvimento e ampliação, mas, ao contrário, o ponto de partida deve ser a transformação da própria realidade, isto é, a transformação da relação existente entre auto-organização e delegação das lutas. Por isso, o "terreno" sobre o qual se compromete só pode ser o proposto pelos estímulos da própria realidade, levando em conta, como sabemos, que esses estímulos estão divididos entre a auto-organização das lutas e a delegação.
Se, num bairro, cresce o descontentamento por certas carências do poder que causam disfunções (aumento da exploração), isto não significa que o bairro está disposto a auto-organizar a luta para resolver o problema inicial, diminuir a exploração que o golpeia e passar a aprofundar a luta por outros objetivos mais gerais e mais especificamente revolucionários. Freqüentemente, tudo o que se está disposto a fazer é esperar para ver que caminho é o mais eficaz para obter aquilo de que se carece... Por este simples motivo, sindicatos e partidos podem cumprir sua função de negociar com o poder a redução das contradições, e dessa forma, acabar com as lutas. Portanto, nossa tarefa não pode ser somente chegar antes deles, mas introduzir a luta num quadro mais amplo, num projeto revolucionário mais complexo, que transfira a relação auto-organização versus delegação para o lado da auto-organização. Isto não é possível limitando-nos aos fatos, à ação como fim em si mesma, ou pior, a uma perspectiva de crescimento quantitativo da minoria.
Nos últimos tempos, a necessidade de compreender bem essa relação se faz mais urgente. Podemos dizer que a dissidência se institucionalizou. A contestação, o formular de petições não ortodoxas, uma certa animosidade da base, coisas que até ontem causavam um certo pânico nos sindicatos e nos partidos, hoje é objeto de debate nas instituições. Mediante a discussão, a abertura, as assembléias de base, o diálogo, impõe-se, de forma limpa e sem manobras, o que o poder quer.
Portanto, o objetivo da intervenção não pode ser estabelecido a priori, mas vai se delimitando no curso da própria intervenção e das modificações que ela causa na realidade das lutas. Não pode ser avaliado com base em resultados objetivos imediatos por alcançar, porque esta também pode ser tarefa de partidos e sindicatos; não pode nem sequer ser avaliado com base numa ideologia a priori, que acaba por se fazer uma afirmação maximalista e, muitas vezes, inoperante frente à uma realidade que se vai estruturando sobre uma série de contradições.
Se, por exemplo, nos limitássemos a denunciar as condições dos presidiários, seriamos sem dúvida úteis aos companheiros que sofrem a repressão. Mas, limitando-nos a isso, condenaríamos nossa intervenção a ficar nas mãos de uma minoria externa que se aproxima de uma realidade e a divide, se bate por ela e, no limite, faz algo por torná-la melhor. Mas este "tornar melhor" também é útil para o poder que, antes ou depois, deve decidir-se a adotar sistemas mais refinados e sociais-democratas de repressão; sistemas igualmente, se não ainda mais eficazes.
A ação da minoria e a realidade das lutas é, portanto, a de impulsionar o desenvolvimento da auto-organização, rompendo com o delegacionismo e o dirigismo, ainda que estejam fantasiados de projeto revolucionário.
A FRAGMENTAÇÃO DA REALIDADE DAS LUTAS
A própria existência do poder e da exploração é o indicio mais seguro da fragmentação da realidade das lutas. Se conseguissem se fundir numa ação homogênea, ou seja, fazer prevalecer a tendência a auto-organização, as lutas barrariam o poder. E dado que o poder avalia corretamente o perigo, organiza-se em conseqüência. Seus aliados mais eficazes são os partidos e os sindicatos.
A fragmentação não se traduz numa distinção de níveis segundo a presença reformista, tecnocrática ou revolucionária. É uma fragmentação que desce verticalmente, em profundidade. Uma realidade de luta, numa fabrica, bairro, gueto, escola, manicômio, etc., sempre tem um conjunto de problemas e de estímulos que a caracterizam, um conjunto de tendências e preconceitos, de separação e de empenho, de compromissos e de tomada de consciência. Somente fechando os olhos pode-se admitir, por definição, que a minoria é monolítica porque é consciente, enquanto que a realidade é fragmentária porque deve ser conquistada pela minoria. Na realidade, as coisas são muito diferentes, o processo é, para ambos os elementos desta relação, uma tendência e uma constante modificação.
Alfredo M. Bonanno (Traduzido, do italiano para o espanhol, por Pablo serrano)
EKINTZA ZUZENA N° 16
Fonte: Biblioteca Virtual Revolucionária.
Revistas, cartilhas e manuais do Intervozes
O material do grupo Intervozes tem uma discussão interessante sobre a política de concessões de radiodifusão no Brasil.
Vá na página que está no link abaixo e leia para saber mais:
www.intervozes.org.br/publicacoes/revistas-cartilhas-e-manuais
Entrevista de Félix Guattari

Entrevista de Félix Guattari pro curso de jornalismo da PUC-SP, 26 de agosto de 1982.
PUC - Poderia nos dizer alguma coisa sobre a situação das rádios francesas antes da eclosão do fenômeno das rádios livres?
Guattari - Na França, tanto o rádio como a TV estiveram sob a tutela do Estado durante todo o pós-guerra. Aliás, não se pode separar um do outro: a administração do rádio tornou-se subjacente a essa máquina enorme que é o setor de TV -- máquina de produção industrial de mídia. Essa máquina incorpora os partidos que têm uma certa concepção de Estado; incorpora também uma grande quantidade de assalariados.
Não sei dizer exatamente quantas pessoas trabalham no rádio na França, mas só no setor de produção devem trabalhar milhares. Foram esses profissionais que mais se empenharam na defesa do monopólio quando o governo de Giscard quis saber se mantinha ou não a tutela estatal. Na ocasião, o monopólio tinha três emissoras oficiais: a France Antenne, de grande audiência, a Fipa, de música popular, e uma emissora de "alto nível", a France Musique (não estou questionando o "nível", mas a concepção de "alto nível"). Ao lado dessas rádios do monopólio, existiam três rádios periféricas: a RTL, Europe I e Sud-Radio. Na realidade, nem essas são totalmente privadas. A Europe I, por exemplo, é uma sociedade mista na qual o Estado é majoritário.
Nos últimos tempos, e, com a ascensão de Giscard, o peso da rádio e da TV foi se tornando cada vez maior no plano político. Giscard d'Estaing, personagem com características de um narcisismo excepcional, fez um uso sistemático da TV. Isso provocou uma forte resistência, uma onda generalizada de "saco cheio" que possibilitou uma inversão da situação como a que ocorreu nas últimas eleições. O que demonstra que o problema da escalada do poder com o auxílio da mídia não é um fenômeno linear.
Outro fator de questionamento e de transformação do monopólio, que também é muito velho, é a função comercial, publicitária dessas rádios estatais. Até Giscard, não havia publicidade nas rádios do monopólio. A publicidade foi introduzida lentamente na TV estatal, com muitas dificuldades, limitações, controle e toda uma legislação restritiva. A questão da publicidade já vinha sendo há muito tempo trabalhada pelos meios financeiros e comerciais. Durante trinta anos houve uma ofensiva do setor financeiro para impor a publicidade no rádio. Essa ofensiva se tornou um aspecto importante da problemática das rádios livres: os meios publicitários, querendo fazer propaganda nas grandes cadeias de rádio, visavam principalmente as populações locais e setoriais, que lhes dariam o retorno desejado. Quando começou o movimento das rádios livres, a partir de 1977, não percebemos, na nossa ingenuidade, que muita gente que apoiava com o maior dinamismo, no fundo tinha uma perspectiva bem diferente da nossa: queriam se utilizar dessa alavanca par desenvolver suas próprias rádios comerciais.
Um último fator a considerar sobre o estágio anterior ao fenômeno das rádios livres é que, tanto no âmbito da TV, quanto no do rádio (muito mais no da TV), há uma "inchação" burocrática incrível dos órgãos de emissão. Eu poderia citar mil anedotas sobre a maneira pela qual agiam os setores da produção, os técnicos, sobre o peso dos sindicatos e da tecnocracia dentro dessa máquina, que é um verdadeiro monstro burocrático. Monstro que, aliás, só será liquidado quando houver uma mutação.
PUC - Miterrand utilizou as rádios livres antes de ser eleito?
Guattari - Antes de mais nada, faço uma observação a nível da própria expressão: ninguém poderia "se utilizar" das rádios livres, antes da eleições, para fazer campanha, porque elas eram interceptadas, embargadas, fechadas, objetos de perseguição. Eram veículos que, do ponto de vista do conteúdo, não veiculavam coisa alguma. Por outro lado, é verdade também que o tema das rádios livres tornou-se um dos mais importantes da campanha eleitoral de Mitterrand.
No início era apenas uma minoria: o pessoal das rádios livres era um bando de loucos, um pouco como Dom Quixote atacando o grande monopólio. Era espantoso. É como se as pessoas aqui resolvessem agora ir atacar um quartel. Rapidamente, o fenômeno ganhou uma força incrível, produzindo um impacto sobre a grande mídia, como se esse ato de ilegalidade tivesse criado uma rachadura no edifício do monopólio. Parece que, de repente, implantou-se um dúvida sobre a legitimidade desse monopólio. É como se uma vidraça, já trincada, se partisse totalmente sob o impacto de um simples pedregulho.
Esquematicamente, as etapas foram as seguintes: esse pequeno grupo de camaradas, diretamente inspirados pelos italianos (mais que inspirados, pois os materiais italianos eram, basicamente, o que mais se utilizava), viu sua iniciativa estender-se rapidamente por toda a França. Muitas vezes, duas ou três pessoas colocavam os equipamentos em uma cozinha e começavam a emitir. Entre os grupos que se formavam, alguns eram folclóricos e insignificantes. Outros, pelo contrário, eram muito importantes desde o início. Por exemplo, o grupo Fessenheim, na Alsácia, equipou-se com material móvel e começou a emitir em três línguas: o francês, o alemão e a língua local. A repressão nunca conseguiu capturá-los: provavelmente, passavam de uma montanha para outra... Em seguida, apareceram os grupos militantes, não profissionais. Em primeiro lugar vieram os ecologistas e fanáticos do rádio. Depois vieram os militantes de bairros, como os de Saint Denis (subúrbio de Paris), que inventaram um modelo de rádio que imediatamente se tornou muito significativo. Eles estavam ligados a tudo o que se passava no bairo -- onde, aliás, havia muitos trabalhadores imigrantes. As pessoas então vinham pessoalmente na rádio contar o que se passava, denunciar nominalmente seu Fulano ou Dona Sicrana. Eles emitiam dia e noite -- principalmente à noite, porque nesse momento não há concorrência, e a mídia menor se torna maior. Isso desencadeou uma repressão e, ao mesmo tempo, uma reação contra a repressão, uma intensa mobilização por parte de juristas e intelectuais.
Houve então um fenômeno de "bola de neve": quanto mais se reprimia as rádios livres, mais elas se desenvolviam. Enquanto os sindicatos operários eram inteiramente fiéis ao princípio do monopólio, os grupos de seções sindicais começaram a se utilizar das rádios livres, o que provocou desequilíbrios e gerou uma série de conflitos dentro dos sindicatos. Os partidos de oposição ficaram solidários às rádios livres, dizendo: "nós somos favoráveis ao monopólio, mas não queremos repressão sobre as rádios livres". Então nós pedíamos que viessem dizer isso nas nossas rádios livres. Eles vinham, a polícia vinha atrás e os processava. Até Mitterrand teve uns encontrões com a polícia... e todo mundo sabe que Mitterrand é o homem da legalidade! No próprio seio da maioria giscardiana, as contradições se acirravam, porque interesses financeiros consideráveis, assim como interesses políticos locais, também começaram a questionar o monopólio.
Portanto, progressivamente, esse fenômeno, que no início era algo insignificante, fez florecer toda uma série de contradições entre o aparelho esclerosado das rádios estatais e as outras rádios; e, por outro lado, ao nível que eu classificaria como molecular, entre um modelo de escuta previsível e essa coisa que se começava a ouvir e que era mutante.
A rádio livre é uma utilização inteiramente diferente da mídia rádio. Não se trata de fazer como a rádio dominante -- nem melhor, nem na mesma direção, que a rádio dominante. Trata-se de encontrar um outro uso, uma outra relação de escuta, uma forma de feedback e de fazer falar línguas menores. Trata-se ainda de promover um certo tipo de criação que não poderia acontecer em nenhum outro lugar. Por exemplo, na rádio em que eu trabalhei (Rádio Tomate), a gente trazia um grupo de teatro para conversar conosco, só que a gente trazia o grupo inteiro e não apenas o líder. E se nos interessasse, a gente falava durante duas horas ou mais com eles. Não se pode imaginar uma rádio, em moldes comerciais, que suporte isso (um entrevista de duas horas), porque ela depende de um índice de audiência, de uma certa suposição de como os ouvintes vão receber a mensagem. Nas rádios oficiais, as pessoas falam como acham que devem falar para serem ouvidas. Isso não acontece nas rádios livres. Não é raro, aliás, ouvir alguns locutores estatais comentarem espantados: "mas eu falei de uma maneira na Rádio Tomate como eu nunca havia falado antes!"
PUC - Mas não acontecia de as próprias rádios estatais copiarem as rádios livres?
Guattari - Uma vez, na Europe I, começou-se a fazer emissões como a das rádios livres e isso deu o maior pau com o pessoal da televisão.
A Rádio Tomate foi a primeira a colocar no ar imigrantes africanos: eles divulgavam a música de que gostam -- na época, inteiramente desconhecida. Eles tinham ainda um estilo de apresentação muito particular. Agora já se começa a ouvir, nas rádios oficiais, o mesmo tipo de música e o mesmo estilo de apresentação. A diferença é que os camaradas africanos nas ŕadios livres eram indisciplinados, chegavam atrasados, etc., e nas rádios oficiais não podem nem conseguem fazer isso.
PUC - Como se formou o grupo da Rádio Tomate?
Guattari - Imediatamente após a tomada de poder pelos socialistas, um núcleo de intelectuais e juristas do CINEL (Centro de Iniciativa por Novos Espaços de Liberdade) reagrupou elementos das várias rádios livres que existiam desde 1977, incorporou elementos do movimento autônomo e ocupou ilegalmente um local no centro de Paris. Houve então um crescimento extraordinário, porque as pessoas dos bairros, os loulous (malandros, pequenos bandidos) começaram a vir para esse local, e aconteceu uma mistura incrível de gente do bairro com intelectuais, com militantes, etc. Às vezes, apareciam até mesmo mendigos. Um vez, tentei trazer o Ministro da Cultura, Jacques Lang: ele aceitou, mas não quis vir até o local da rádio.
Foi uma experiência extraordinária, às vezes uma violência surpreendente. Havia cenas de conflito, problemas pessoais, às vezes misturados com problemas de droga, faltava dinheiro e por aí vai.
PUC - Como era a repressão antes? Dava prisão?
Guattari - Prisão não dava, mas houve tantos processos que os juízes já estavam de saco cheio. Uma vez, publiquei uma carta no jornal Libération, avisando ao juiz que não iria mais responder às suas convocações. Através do advogado, o juiz disse que eu podia me recusar a atendê-lo, mas precisava que, sobretudo, eu não tornasse pública essa minha desobediência...
PUC - Como era feita a interceptação na época do giscardismo?
Guattari - Havia um sistema eletrônico de balizamento que localizava a emissão e a apagava com um ruído. Mas a gente nunca era inteiramente interceptado. Era só mudar a faixa de onda e pronto! Ou então, se nós nos colocássemos nas proximidades de uma rádio oficial, a interceptação apagava também esta última. De qualquer forma, é um problema muito complicado. Sem falar que a interceptação podia também funcionar como uma informação. Você virava o botão do rádio e ouvia o tempo todo: "censura, censura, censura...".
PUC - As rádios de extrema-direita tiveram algum papel nesse movimento?
Guattari - Na época, nenhum. Agora que há o estatuto das rádios livres, não há mais rádios de extrema-direita, mas rádios de direita: a Rádio Chirac, por exemplo, e várias rádios sionistas, uma delas particularmente reacionária. Mas os grupos fascistas, que eu saiba, nunca ocuparam as radios livres. Uma vez uma rádio abriu espaço para todos: falava quem quisesse, bastava telefonar e podia falar durante dez minutos. Então, os fascistas usaram essa brecha. Na época, isso foi entendido como o nascimento de uma rádio fascista. Imediatamente, as pessoas intervieram para impedir que isso voltasse a acontecer.
PUC - Atualmente, na França, vários grupos reinvindicam uma emissora. Mas chega um momento em que o dial não comporta o número de pedidos. Como está sendo resolvido esse problema?
Guattari - É uma questão complicada. A situação é bem diferente em Paris e no interior. Com exceção das grandes cidades, como Marselha, Lyon, etc., no interior, há possibilidade de satisfazer a todos os pedidos. Em Paris, deve haver aproximadamente uns duzentos pedidos, e as possibilidades são limitadas. O problema é saber qual é o limite. Os socialistas fizeram uma manobra e acabaram por impor uma espécie de compromisso, que consistiu em admitir uma implantação de rádios muito potentes na região parisiense, em vez de aceitar rádios de 5 a 8 km de alcance (o que já é muito para um meio denso e populoso como Paris). Eles partiram da idéia de que 7 ou 8 rádios poderiam ter um raio considerável (uns 30 km) e 10 rádios poderim ter um raio de 15 km, o que já é o suficiente para saturar completamente o espaço da região parisiense. Já um outro enfoque técnico, mais compatível com a espírito das rádios livres, propunha a utilização de frequências privadas, como as do exército e outras, o que permitiria o funcionamento de pelo menos 50 emissoras, cujo alcance seria menor. O importante era conseguir impedir as rádios comerciais e aquelas das grandes organizações e dos jornais que monopolizam a mídia. Com 50 emissoras seria possível um processo de fusão e de associações que abrangeria toda a demanda. No momento, com apenas 15 rádios podendo funcionar, há uma verdadeira guerra nesse setor.
PUC - Está havendo composições? Tendências diferentes conseguem operar numa mesma emissora?
Guattari - Existe uma comissão de tecnocratas e de representantes do movimento que vem se comportando como uma alcoviteira, tentando fazer casamentos forçados. Isso tem dado origem a conflitos intermináveis. A Rádio Tomate, em todo caso, não quis se casar, ou não se casou a tempo e agora está numa fila de espera aguardando decisões.
PUC - Porque as rádios livres só ocupam a FM e não as ondas curtas e médias?
Guattari - Por razões econômicas, principalmente. Você pode montar um equipamento de 300 W, que tem um raio de alcance de 10 km com apenas 10.000 francos. Mas se você quiser passar para as ondas médias, vai precisar de antenas enormes e de uma aparelhagem muito cara.
PUC - E quem vende esses equipamentos?
Guattari - Antes, eles eram importados ilegalmente da Itália. Agora, grande parte é fabricada caseiramente pelos gênios da eletrônica. Durante anos, fomos objeto de uma campanha de denegrimento nessa questão técnica. É preciso conhecer bem o aspecto técnico da coisa porque, se um dia acontecer um movimento de rádios livres no Brasil, esse problema certamente vai surgir. Os técnicos nos diziam: "o que vocês fazem é perigoso. Vocês são uns irresponsáveis. Vocês podem entrar na frequência da rota de aviões, de ambulãncias ou da polícia. Vocês podem desencadear uma catástrofe urbana". Na realidade, nada disso aconteceu. O medo que eles tinham era que se pudesse instaurar um bagunça no plano social, e que esse tipo de rádio tivesse a mesma função que teve na Itália: servir de caixa de ressonância a movimentos políticos muito fortes.
PUC - Pode-se dizer que esse fenômeno já foi recuperado ou enquadrado pelo capitalismo na França?
Guattari - Não pelo capitalismo, mas pelo poder de Estado, pelo poder local, pelos partidos tradicionais, pelos sindicatos. O governo socialista resistiu à entrada do setor financeiro e nessa época houve uma polêmica muito viva, da qual participaram também as forças de esquerda. Uma vez que o governo recusou a entrada da publicidade nas rádios livres, estas se tornaram insignificantes para os interesses privados. O que não os impede, entretanto, de procurar outros caminhos.
PUC - Ao nível da linguagem, o que mudou? O que representou esse movimento de um ponto de vista estético?
Guattari - Sobre o alcance estético sou muito reservado. Tudo depende dos critérios adotados. Se você gosta da música de John Cage, basta girar o botão do rádio para varrer todas as emissoras... Isso produz uma música muito particular...
PUC - Mas não será esse, justamente, o ruído final buscado pelas rádios livres?
Guattari - Num certo sentido sim, porque a coisa consiste em varrer as redundâncias dominantes, uma certa maneira de falar: "boa noite, caros ouvintes da rádio X! Vamos dar início a mais um programa Y...". No plano da linguagem, houve inicialmente um fato contundente: dezenas de línguas começaram a ser faladas na rádio francesa. Só na Rádio Tomate se fala espanhol, italiano, alemão, polonês, basco, bretão, etc. Algumas programações são exclusivamente nessas línguas, outras são bilĩngues. Outra coisa é a maneira de falar essas línguas: as formas de sintaxe, de retórica e de argumentação. Nada disso é feito dentro dos moldes dominantes (o que não quer dizer que as rádios livres não criem seus próprios moldes). Aliás, esta é uma das questões mais interessantes: qual é a maneira específica de falar nas rádios livres?
PUC - Existem dados sobre a quantidade de ouvintes?
Guattari - Já houve algumas sondagens, mas não são muito dignas de crédito. Uma das melhores rádios, a Gay, dedicada ao público homossexual, deve ter de 100 a 150 mil ouvintes, uma audiência não manifestamente homossexual. Segundo algumas sondagens, a Rádio Tomate deve ter cerca de 50 mil ouvintes. Mas o que é mais significativo é que a audiência das rádios estatais caiu em cerca de 50%. Há uma crise terrível nessas rádios. Isso ocorre, principalmente, porque as pessoas não conseguem chegar às rádios estatais, pois são obrigadas a passar pelas rádios livres. Você pensa que está ouvindo uma emissora e de repente entra uma outra no lugar, e isso sem que você tenha tocado no dial. Muitas pessoas hoje reclamam porque querem ouvir música clássica na France Musique e não conseguem sintonizá-la.
PUC - Quais as experiências mais significativas das rádios livres na França?
Guattari - É difícil responder, porque são coisas muito diversas. Há a experiência da Radio 93 no subúrbio de Saint Denis. Nela, as pessoas expunham os seus problemas da vida real. Em geral, eram pessoas entrincheiradas, resistindo contra a polícia nos grandes conjuntos habitacionais. Essas pessoas contavam, por exemplo, que haviam sido presas por não terem pago uma prestação. Uma coisa era ler essas histórias num jornal, mas outra era ouvir diretamente a própria pessoa falando. Houve ainda as experiências com rádios regionais, que foram muito importantes. A experiência da Radio Coeur d'Acier, em Longwy, foi fundamental. O que aconteceu de mais importante nessa rádio, de certa forma foi também o que aconteceu nas fábricas Lip onde se ultrapassaram as direções tradicionais e houve uma experiência de autogestão: ela tornou evidente que os movimentos eram capazes de quebrar a estrutura sindical e seus estereótipos, a ponto de essa rádio (que era ligada à CGT e ao PCF) se tornar, num determinado momento, mais livre que todas as rádios livres da França. Foi um grande problema para a CGT liquidar essa experiência, porque quem estava envolvido nela não era simplesmente um grupelho esquerdista, mas um movimento social dos mais amplos.
Eu gostaria de inverter um pouco a nossa relação para que vocês falem das rádios livres no Brasil, hoje. Discuti essa questão em Campinas, com gente próxima ao PT, e eles me disseram que uma rádio livre aqui não seria simplesmente interceptada: ela poderia dar cadeia. Pergunto: se o Lula criar uma Rádio dos Trabalhadores, isso provocaria repressão?
PUC - Seguramente. No mínimo, a rádio seria fechada. O problema aqui é que a interceptação não é técnica, como na França, mas policial. Haveria personalização das pessoas envolvidas. Por outro lado, é preciso considerar que uma rádio de um partido organizado como o PT poderia ter o respaldo de movimentos populares bastante amplos, o que daria imediatamente uma dimensão política de proporções nacionais às eventuais prisões. Em todo caso, uma rádio dessa natureza só poderia surgir no bojo de uma luta política, em que a relação de forças nos fosse favorável.
Guattari - Eu vou fazer uma observação que poderá ser mal interpretada, vinda de um francês apenas de passagem por aqui. Parece-me que num grande país e numa grande potência industrial, como é o Brasil, essa problemática em algum momento deveria emergir. Não consigo ver como é possível que não se coloque aqui o problema da nova mídia, nem que seja só para formação da força coletiva de trabalho. Num país que vem conhecendo uma repressão bastante forte, como é o caso da Polônia, existem rádios livres, e elas desempenham um papel considerável na resistência ao regime. Estive recentemente na Polônia e fui informado de que grande parte dos esforços da polícia estavam concentrados em fazer cessar as emissões clandestinas. Além disso, é preciso começar a refletir também sobre o papel das rádios livres no próprio seio das organizações democráticas.
PUC - Os problemas para uma eclosão de rádios livres no Brasil não são apenas de natureza policial. Há também uma resistência interna imensa dentro dos próprios grupos de esquerda. Seus programas simplesmente ignoram a questão da mídia, e não apontam alternativas para resistir ao seu poder. Por outro lado, as pessoas que se preocupam com esses problems não estão diretamente vinculadas a movimentos políticos e, portanto, não têm perspectivas políticas próprias.
Guattari - Esse problema também ocorreu na França. Os grupos militantes trotkistas, maoístas e esquerdistas de toda natureza foram os últimos a encarar as possibilidades abertas pelas rádios livres. Porém essa situação pode ser mudada, e muito rapidamente. Se formos esperar que grupos militantes tradicionais tomem consciência desse problema para se mobilizar, corremos o risco de esperar por muito tempo. Frequentemente, quem faz a transgressão são indivíduos isolados, "loucos" mesmo. Uma das maneiras de encarar esse problema na França foi considerar que era necessário de início preparar cuidadosamente um dispositivo de emissão, e só colocá-lo em funcionamento em ocasiões muito especiais. Por exemplo: por ocasião de uma greve com ocupação, se uma rádio livre transmite o que está ocorrendo, isso obriga as forças policiais a investir um espaço social muito mais amplo do que o da fábrica em questão, o que agrava o problema. Ou então, por ocasião de algum acontecimento específico, a intervenção pontual de uma rádio livre introduz uma informação diferente, que poderá ser imediatamente retomada pela grande mídia. É exatamente para poder intervir no momento conveniente que é preciso fazer a preparação técnica do equipamento com antecedência. Caso contrário, quando a ocasião favorável se apresenta, em geral não temos mais tempo de realizar as condições técnicas.
PUC - Sem dúvida essa questão terá de ser enfrentada com maior ousadia pelos brasileiros. Em todo o caso, a discussão já começou.
Para terminar, você poderia nos dizer algo sobre as rádios livres na Polônia?
Guattari - Trata-se de emissões da direção clandestina da Solidariedade. Elas são bem curtas, registradas em k7 e são emitidas sem a presença dos militantes, correndo o risco de apreensão do material. Houve há algumas prisões, que começaram com a de um belga que levava material para lá. Uma rede que trabalhava para a Solidariedade caiu, mas oito dias depois as transmissões já tinham recomeçado. Seu conteúdo consiste principalmente em orientações do movimento Solidariedade. Entre elas, por exemplo, a denúncia de revistas e panfletos que o governo polonês publica em nome do Solidariedade. A rádio funciona como garantia de autenticidade das declarações do movimento. Felizmente, o governo ainda não teve a idéia de fazer falsas emissões da Rádio Solidariedade. Além disso, é muito importante para a população ouvir a voz dos dirigentes...
Fonte:editoraderiva.multiply.com/reviews/item/10
Brecht e a "Teoria do rádio" - Celso Frederico
www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142007000200017&script=sci_arttext&tlng=e
O rádio como aparato de comunicação Discurso sobre a função do rádio

A NOSSA organização social, que é anárquica – se é que se pode imaginar uma anarquia da organização, ou seja, uma confusão mecânica e despro-vida de significados, largamente ordenada em torno da complexidade da vida pública –, a nossa organização social, nesse sentido, anárquica, possibilita que se façam e se desenvolvam invenções, que ainda estão por conquistar o seu mercado e por demonstrar a justificativa de sua existência; estamos falando, em resumo, de invenções que não são encomendadas. Assim, a técnica pôde adiantar-se a tal ponto que engendrou o rádio numa época em que a sociedade não estava madura para acolhê-lo. Não era o público que aguardava o rádio, senão o rádio que aguardava o público, e para melhor caracterizar a situação do rádio: não era a matéria-prima que esperava pelos métodos de produção com base numa necessidade pública; eram os métodos de produção que procuravam ansiosamente pela matéria-prima. Tinha-se, repentinamente, a possibilidade de dizer tudo a todos, mas, pensando bem, não havia nada a ser dito. E quem seriam
esses todos ?
Continua em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142007000200018&script=sci_arttext&tlng=e
Rádio Tarrafa...livre sem medo de ser libertária!

Rádio Tarrafa FM Livre.
Estamos construindo um novo projeto de rádio livre em Floripa.
Uma alternativa radical ao monopólio informativo das grandes emissoras, que obscurecem a realidade criando visões de mundo voltadas para o consumo.
Nessa semana estaremos postando alguns textos interessantes sobre comunicação, autogestão e ativismo.
Tuesday, March 25, 2008
Assim expresso minha Solidariedade:
e um sorriso largo como claro.
Com um coração amoroso
que se desnuda diante do camarada.
Com uma mão doce
e a outra armada.
Assim expresso minha Solidariedade:
ganhando em cada batalha
uma soma da apreciada Liberdade.
Gabriel Pombo da Silva
Aachen – Alemanha
- Agosto de 2004 -